a certeza

a certeza

nunca é uma dúvida.

com certeza, nem sempre há certeza,

no meio de tanta estranheza

desse ser reticente e prudente.

certo é, que,

tendo sido a gente,

um pouco mais transparente,

se tornou tudo claro e evidente,

permitindo-me proferir

de forma veemente e,

com toda a certeza,

que essa falta de decisão e destreza

fora causada por,

suavemente,

meus olhos terem descoberto

tamanha beleza.

desculpo-me também pela pressa,

porque o resto não interessa

nem se sobrepõe ao que me peça.

[para alimentar uma chama que não cessa.]

por fim,

[e não sei se existe, onde fica, ou o que é um fim]

não sei porque escrevi assim.

foi como que o voltar a nós e a mim,

renovando tudo aquilo que começou por um sim.

vem até mim…

há momentos para tudo: momentos para fugir. momentos para achar que todo o tempo da nossa existência não chega para se ser feliz. há momentos de prisão interior. momentos para achar que nos resta demasiado tempo para sermos uns tristes.

há tempo para amar: amar as pedras da calçada. há também tempo para atirar o amor contra as pedras da calçada, como um assunto sem importância. e será?

há tempo para trabalhar: tempo para garantir o nosso futuro. terei futuro? terás? teremos futuro enquanto durarmos sem viver o que nos resta de dignidade cognitiva? não obstante, continuo a trabalhar.

há momentos para achar que tudo isto não passa de uma esfera: uma esfera pesada; uma grande esfera pesada – e que não gira para o lado que nós queremos; e que não se move segundo os nossos ímpetos cardíacos. não se mexe, ponto. porque, de facto, tudo isto não passa de uma esfera: uma grande esfera pesada, e imóvel.

não há. não há nada. nada de certo. nem a morte, nem nenhum tipo de concepção barata que nos possam vender. há mudanças de órgãos vitais, há transplantes de ideias letais… há todo um universo por descobrir, e eu aqui. estou sentado. estou prostrado perante a magnificência do mundo. do mesmo mundo que me impingiram enquanto moço. do mesmo mundo que me empurra para a sarjeta todos os dias, num gesto surreal de realidade nua e crua. do mesmo mundo que areja com o bater das asas de uma borboleta e não vacila com o meu suspirar.

de entre a luz, escassa hoje, sai o frio cá para dentro. nem o calor do sódio se acende hoje. é tudo halogéneo. raro. forte. branco. neutro. frio. é meu esta noite.

ter [o quê?]

é isso que tens.

tens as pedras dessa calçada,

tens o asfalto dessa estrada,

tens a alma dessa vida

e não sabes o que fazer com ela;

tens o luar,

tens essa dança,

fútil,

que vives.

tens-me a mim.

tens-te a ti,

tens essa roda viva de emoções

e não sabes o que fazer com ela.

mas nunca foste,

essa mancha luminosa

de felicidade

que apregoas aos sete ventos,

mas,

é tua.

não a deixes fugir:

guarda alguma para ti.

sing in the storm

hoje,

que o meu amor partiu,

há tempestade lá fora.

hoje, que quis ser fraco,

sem querer,

a chuva cai-me sobre os ombros.

o que foste ontem,

sol,

jamais deixarás de ser,

apesar dos relâmpagos que

insistem em fazer estremecer

o meu mundo.

e o teu mundo,

por entre a chuva,

miúda,

quente porém,

mas seca [em meus olhos].

e fico aqui:

parado,

a olhar para ti,

estou só.

estou só a cantar,

uma valsa impossível qualquer,

pois nada faz mais sentido

que cantar,

debaixo da tempestade,

um hino ao sol

que virá amanhã.

[precisei de desabafar umas coisas… daquelas que se dizem ou ficam por dizer com a cabeça quente. coisas na cabeça não faltavam. algo meu. mas algo dedicado a alguém, a uma querida amiga, alguém perto de mim a quem precisava de escrever. mas faltava-me uma metáfora. estava, como tem estado, um temporal apocalíptico lá fora, e surgiu-me o tema/título de um blog do qual gosto bastante: sing in the storm. “porque depois da tempestade vem a bonança.”]

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um novo tudo.

começa um novo ano. mais uma grandiosa fase de altos e baixos na montanha russa da imaginação. e da vida. neste tudo-ou-nada criativo, as ideias têm fluído rápido, se bem que há outras que ficam, mas, pelos vistos, não com vontade suficiente para perdurar por aqui. contudo, queria começar a dar qualquer coisa nova a este blog, no início deste ano [comum] de 2010. vou  mudar a frase que descreve o blog. gosto dela. mas acho que é tempo de algo diferente… vem de uma obra prima do génio-Pessoa-Campos que se chama ‘tabacaria’. e começa assim:


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

e, quase como epitáfio, deixo aqui a ‘velha’ frase:

A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata

Woolf ,Virginia

[espero que ainda haja espaço para muitos sonhos bons neste 2010]

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