M. C. Escher

M. C. Escher

Maurits Cornelis Escher, Mauk para os familiares e amigos, nasceu a 17 de Junho de 1898 em Leeuwarden, uma cidade no norte da Holanda. Filho de um engenheiro civil, cedo foi encorajado por seu pai a aprender carpintaria. Durante esse tempo desenvolveu o gosto pelo trabalho com madeira e aprendeu técnicas que utilizaria mais tarde nas xilogravuras.

Em 1919, ingressou na Escola de Arquitectura e Artes Decorativas de Haarlem, onde viria a trocar o curso de Arquitectura pelas Artes Gráficas. Contou aí com o incentivo do professor de técnicas de gravura artística Samuel Jesserun de Mesquita, judeu de origem portuguesa, com quem manteve contacto até 1944, altura em que Mesquita e sua família foram assassinadas pelos nazis.

Castelo no Ar, 1928

Tal como muitos artistas, sentiu-se atraído por Itália e abandonados os estudos em 1922 para aí rumou. Em Itália descobriu uma paisagem e uma arquitectura que o fascinaram. Foi na pequena cidade de Ravello que conheceu Jetta Umiker, com quem viria a casar, em 1924. Na Primavera partia em viagem e durante uns dois meses explorava e esboçava cidades, aldeias e paisagens rurais. Registava detalhes de edifícios monumentais, captados de pontos de vista invulgares, retratava cidadezinhas instaladas em vertentes inclinadas, gravava pequenos pormenores da natureza. Estes esboços constituíam fonte de inspiração e matéria-prima para as composições que produziria no seu estúdio durante o Outono e o Inverno, sob a forma de litografia ou xilogravura.

Mão com esfera reflectora, 1935

Esta primeira fase da sua obra e marcada por um realismo agudo mas que denota, ao mesmo tempo, um modo muito próprio de observar o real, uma verdadeira obsessão pela estrutura do espaço e pelo uso de ângulos de visão contrastantes. São disso exemplo, as gravuras Castelo no Ar (1928) e Mão com esfera reflectora (1935).

Em 1935, mudou-se para a Suíça, onde viveu apenas dois anos. A paisagem parecia-lhe monótona e pouco inspiradora. Fixa-se em Ukkel, na Bélgica, 1937. Quatro anos mais tarde regressa à Holanda definitivamente.

Esse ano de 1937 traça uma divisão profunda na sua obra. A partir desta época, o seu trabalho incide nas construções da sua própria imaginação e passa a exprimir aquilo que ele próprio designa como pensamento visual. O filho mais velho recorda, teria ele dez anos, uma profunda alteração no trabalho do pai:

Começaram a aparecer pequenos homenzinhos a combinarem-se uns com os outros. O seu trabalho tornou-se um combate, mas havia um entusiasmo diferente do anterior, uma necessidade de comunicar, de nos usar como caixa de ressonância enquanto falava sobre problemas que entendíamos mal.
G. Escher, 1986

Trabalha com formas geométricas inspiradas em mosaicos islâmicos (que viu e copiou numa visita a Alhambra em 1936) e em formações cristalinas. Procura dar vida a esses padrões, substituindo as formas abstractas por figuras reconhecíveis (animais, plantas, pessoas).

O reconhecimento público da obra de M. C. Escher não foi imediato. O artista passou mesmo por dificuldades financeiras durante uma boa parte da sua vida, apenas ultrapassados devido a um grande comedimento nos seus gastos e a ajuda dos seus pais e sogros. No entanto, em 1951 multiplicam-se artigos sobre a sua obra em várias revistas, tornando-se conhecido e respeitado. Em 1954 realiza uma grande exposição no Museu Stedelijk, em Amesterdão, em simultâneo com a Conferência Internacional de Matemática. Expõe igualmente em Washington. Em 1960 expõe em Cambridge e é orador convidado numa conferência internacional de cristalografia. A sua obra tornou-se uma ponte simbólica entre a ciência e a arte.

Serpentes, 1969

Escher trabalhou sempre com muita regularidade. Só em 1962, quando teve que ser submetido a uma grave intervenção cirúrgica, interrompeu a sua actividade por algum tempo. O seu trabalho Serpentes (1969) demonstra bem que a sua perícia ainda se mantinha.

De acordo com o seu filho, M. C. Escher era uma pessoa disciplinada, que trabalhava a horas regulares, entre as oito e as cinco da tarde. A criação de uma nova obra seguia um padrão recorrente: um novo conceito podia ter meses, ou mesmo anos de incubação, mas subitamente começava a falar dele com imenso entusiasmo, geralmente ao pequeno-almoço. Nas semanas seguintes parecia esquecer-se dele, ate chegar o dia em que iniciava a sua exploração, seguindo-se semanas em que requeria completo sossego e privacidade. Até que um dia, de tarde, abria a porta do estúdio e apresentava o desenho a família. Depois eram semanas de gravação na madeira, geralmente mais relaxantes, até aquele dia em que, com um misto de alegria e ansiedade, produzia a primeira impressão.

Apesar de não se considerar como particularmente dotado para a música, apreciava-a muitíssimo e considerava-a como fonte de inspiração. Tocava violoncelo e na sua juventude chegou a fazer parte de um quarteto de cordas com três dos seus amigos.

Faleceu a 27 de Março de 1972. Durante toda a sua vida nunca se considerou nem artista plástico nem matemático mas sim um artista gráfico. Dava-lhe uma enorme satisfação o interesse com que os matemáticos e cientistas recebiam a sua obra.

“Confrontando os enigmas que nos rodeiam e considerando e analisando as observações que fazia, terminei nos territórios da Matemática. Apesar de não possuir qualquer conhecimento ou treino nas ciências exactas, sinto muitas vezes que tenho mais em comum com os matemáticos do que com os meus colegas artistas.”
M. C. Escher, 1967

Deve sublinhar-se que nunca teve uma formação académica em Matemática, sendo conduzido a ela, quase como um autodidacta, pela sua própria experiência.

Igualmente importante foi o contacto que manteve com matemáticos, como R. Penrose e H. Coxeter, e outros cientistas como Loeb e C. MacGillavry.

”Apesar do texto das publicações cientificas estar geralmente para lá da minha compreensão, os desenhos que a ilustram serviram-me não raro para perceber novas possibilidades para o meu trabalho. Deste modo um contacto fecundo pode ser estabelecido entre os matemáticos e eu próprio.”
M C. Escher, 1964

De facto, tanto Escher como os matemáticos tem modos similares de lidar com o seu trabalho. Ambos começam por seleccionar um pequeno conjunto de regras que definem as evoluções possíveis num mundo abstracto. Depois exploram em detalhe as consequências da aplicação dessas regras chegando por vezes a descobertas interessantes.

Explorações no plano, interpretações do espaço e aproximações ao infinito constituem alguns tópicos de Matemática que tiveram um eco notável na obra de Escher e cujas interpretações artísticas fascinaram muitos matemáticos.

M. C. Escher – Arte e matemática, APM – Associação de Professores de Matemática, 1998

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