Quem me conta?

Num tempo onde cada vez mais o tempo foge, por entre afazeres que escravizam as pessoas e não lhes deixam espaço para apreciarem os momentos mais belos que são aqueles em que partilhamos o sorriso das crianças enquanto brincam num mundo imaginário, urge perguntar quem lhes conta um conto.
Esquecidos do nosso tempo, daquele tempo em que partilhávamos brincadeiras, nos sujávamos com a terra que cobria os nossos parques, nos deleitávamos com as coisas simples que nos eram oferecidas, criávamos sonhos, ouviamos as histórias que avós e pais (mães) nos contavam, assistimos actualmente a um tempo de puro egoísmo e esquecemos as nossas crianças e o tempo em que também nós o fomos.

A escola tem vindo a substituir os pais no seu papel de educadores e parece que essa ideia ganha ainda mais consistência com o que ouvimos apregoar a quem tem responsabilidades a este nível. A peregrina ideia de escola a tempo inteiro ganha força num mundo cada vez mais exigente e em decadência, como se tem vindo a manifestar. Jamais a palavra escravatura teve significado como agora. Se em tempos ser escravo significava ser alguém sem direitos, não ser sequer dono do seu próprio corpo, quanto mais da alma, o que constatamos hoje é mais do que essa perda, é a perda do nosso direito em educar os nossos filhos enquanto pais e lhes podermos dar aquilo que eles nos pedem: a nossa atenção, o nosso amor, a nossa educação.

Preferimos entregar a outros o destino dessas obrigações. Descartamos a nossa possibilidade de estar com as nossas crianças. Esperamos que alguém faça por nós o que não queremos fazer. É mais fácil. Que ignóbil ideia esta! Criámos armazéns de crianças e esperamos que aí sejam formatadas, aparadas, limadas, esculpidas, talhadas. Quando as recebemos nem as reconhecemos. Para que não nos criem muitas ondas satisfazemos todos os seus caprichos. Não há paciência para aturar as suas pretensões e por isso lhes damos tudo o que é possível dar. Já não brincamos com elas , não lhes contamos histórias, antes as colocamos à frente do maravilhoso ecrã de TV, computador ou da maravilhosa consola de jogos, última geração com as mais recentes actualizações. Se isto não resultar sempre existe o famigerado telemóvel que também grava cenas bacanas e sempre podem ser vistas no Youtube.

Quem me conta? Quem me conta uma história daquelas que me fazem viajar até aos confins do imaginário?

Quem me conta?

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