Agosto 2009

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«Às vezes, lá onde moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso»

Miguel de Sousa Tavares in ‘No teu deserto’


neste momento encontro-me num período de férias de mim.

a cabeça está cheia. jazem pensamentos perdidos e rostos de areias que o mar recolheu e não voltou a trazer.

podes entrar. começa por apanhar o vazio espalhado pelo chão e depois arruma-o nessas gavetas do arquivo morto.

isso,  limpa os meus destroços e arruma a casa por mim.

depois, vem comigo, sonhar o impossível:

com a luz, na noite,

com o breu, acordado num dia cinzento.

e porque os dias têm de ser cinzentos?

não brancos.

não pretos.

cinzentos?

talvez porque nem tudo é preto ou branco.

porque há cinzento.

do mais claro ao mais escuro. como isto entre nós.

não de cor cinzenta. mas visualizando um espectro de cores mais alargado.

cores, ora vivas, ora acabadas e desvanecidas pelo tempo que passou

e pelo que virá e escasseia por entre as nossas mãos.

o cinzento desse mar,

ou desse sol,

ou dessa casa,

ou desse livro.

(porque em tudo existe cinzento)

é fruto dessa casa confusa,

do peso de pensares

[retiras o filtro]

começas a ver por ti.

há mais vida.

estará a casa arrumada?

nem por isso.

mas nada te impedirá de veres os dias como são,

as gentes que passam

e o mar que vai e vem.

vê o que sentes,

diz o que vês

e haverá mais cor.

estará a casa arrumada?

não, ainda não.

estará um dia.

[amanhece…]