Quinta-feira, 29 Julho 2010

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há momentos para tudo: momentos para fugir. momentos para achar que todo o tempo da nossa existência não chega para se ser feliz. há momentos de prisão interior. momentos para achar que nos resta demasiado tempo para sermos uns tristes.

há tempo para amar: amar as pedras da calçada. há também tempo para atirar o amor contra as pedras da calçada, como um assunto sem importância. e será?

há tempo para trabalhar: tempo para garantir o nosso futuro. terei futuro? terás? teremos futuro enquanto durarmos sem viver o que nos resta de dignidade cognitiva? não obstante, continuo a trabalhar.

há momentos para achar que tudo isto não passa de uma esfera: uma esfera pesada; uma grande esfera pesada – e que não gira para o lado que nós queremos; e que não se move segundo os nossos ímpetos cardíacos. não se mexe, ponto. porque, de facto, tudo isto não passa de uma esfera: uma grande esfera pesada, e imóvel.

não há. não há nada. nada de certo. nem a morte, nem nenhum tipo de concepção barata que nos possam vender. há mudanças de órgãos vitais, há transplantes de ideias letais… há todo um universo por descobrir, e eu aqui. estou sentado. estou prostrado perante a magnificência do mundo. do mesmo mundo que me impingiram enquanto moço. do mesmo mundo que me empurra para a sarjeta todos os dias, num gesto surreal de realidade nua e crua. do mesmo mundo que areja com o bater das asas de uma borboleta e não vacila com o meu suspirar.

de entre a luz, escassa hoje, sai o frio cá para dentro. nem o calor do sódio se acende hoje. é tudo halogéneo. raro. forte. branco. neutro. frio. é meu esta noite.