«Às vezes, lá onde moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso»

Miguel de Sousa Tavares in ‘No teu deserto’


neste momento encontro-me num período de férias de mim.

a cabeça está cheia. jazem pensamentos perdidos e rostos de areias que o mar recolheu e não voltou a trazer.

podes entrar. começa por apanhar o vazio espalhado pelo chão e depois arruma-o nessas gavetas do arquivo morto.

isso,  limpa os meus destroços e arruma a casa por mim.

depois, vem comigo, sonhar o impossível:

com a luz, na noite,

com o breu, acordado num dia cinzento.

e porque os dias têm de ser cinzentos?

não brancos.

não pretos.

cinzentos?

talvez porque nem tudo é preto ou branco.

porque há cinzento.

do mais claro ao mais escuro. como isto entre nós.

não de cor cinzenta. mas visualizando um espectro de cores mais alargado.

cores, ora vivas, ora acabadas e desvanecidas pelo tempo que passou

e pelo que virá e escasseia por entre as nossas mãos.

o cinzento desse mar,

ou desse sol,

ou dessa casa,

ou desse livro.

(porque em tudo existe cinzento)

é fruto dessa casa confusa,

do peso de pensares

[retiras o filtro]

começas a ver por ti.

há mais vida.

estará a casa arrumada?

nem por isso.

mas nada te impedirá de veres os dias como são,

as gentes que passam

e o mar que vai e vem.

vê o que sentes,

diz o que vês

e haverá mais cor.

estará a casa arrumada?

não, ainda não.

estará um dia.

[amanhece…]

pode parecer estranho e surreal… porque não estou categóricamente sóbrio…

pode parecer que me deixo levar pelas dimensões do tempo e pelas sensações coloridas de um amanhã…

mas não. não quero saber.

eu disse. esta confusão de palavras é dedicada à minha gémea. pelas conversas e encontros. e desencontros. aos olhares!

falo-vos de uma estação. de um caminho… no centro do mundo…

Finsbury Park.

[uma estação de metro. do mundo. para mim tem um significado. tenho esta coisa de ver pormenores em coisas aparentemente simples, quando os das complexas e óbvias me passam completamente ao lado. ela sabe. compreende. é assim, também.]

[não podendo contar metade do que senti e vi. dos olhares e das gentes que passam. não há palavras]

dois seres amam-se, olham-se, mexem-se.

não manifestam esse amor.

dois humanos olham-se. apenas. só.

estamos no metro de londres. nesse emaranhado de vidas. são anónimos [para mim]. desconheço os seus nomes, os seus hábitos… pertencem ao meu campo visual num determinado momento, ponto.

amam-se. sente-se no ar frio e distante das gentes do metro.

mas eles estão perto. deles próprios. um do outro…

amam-se porque eu sei, como não sei [amar].

aproximam-se. o beijo parece não se soltar. apesar dos toques e do espaço, e dos relógios estarem parados nesse instante. manteve-se o espaço. [mind the gap]

podemos imaginar as suas identidades, vislumbrar os seus olhares.

aproximam-se. falam…

como se de uma noite se tratasse…

como se um ambiente noctívago e cúmplice os envolvesse.

amam-se porque eu sei, como não sei. mais uma vez. mais as vezes que forem precisas. porque não há mais nada.

the next station is Finsbury Park.

saem.

do metro.

da minha vida.

como sairemos um dia,

da vida um do outro.

se algum dia chegámos a entrar…

Finsbury Park [vê-se].

chegaram ao destino.

chegaremos?

teremos algum?

this is Finsbury Park. Please mind the gap between the train and the platform.

saem.

carne crua

não sou o que dizem [vêem],
fazem [de mim].
sou eu.
a verdade crua
nua,
sob o asfalto
desgastado pelo tempo
e por memórias
que ninguém apaga.
sou esse rosto
que friamente
espreita pelo domínio do estático;
o caminho que se faz parado,
andando pela luz do tempo.
o azul desse céu
que busco
e não alcanço,
atrás das nuvens que ficaram.
sigo.
há mais ar à minha espera.

encoberto[desculpa]

encoberto

encoberto.

em ti

de ti

por ti

[desculpa]

mais perto (quo vadis?)

Quando tentares

Agarrar essa imagem,

Vais-te sentir,

Mais longe

De ti,

Dos outros,

Porque já não serás,

Tu,

Nem a tua sombra,

Seremos nós,

Serás qualquer coisa,

Talvez ninguém.

Na noite escura,

Não procures ser algo,

Não procures ser aquilo,

Não procures ser isso,

Ou nada,

Procura ser,

Sem encontrar,

Sem achar,

E sem achar,

Que tudo está longe,

Ou perto,

Ou vazio,

Ou estranho.

Solta essa energia,

Deixa-te guiar.

O escuro,

O negro da estrada,

O laranja dessa luz,

São o que criaste,

De onde vens.

De onde vens?

Para onde vais,

Que deslocação é essa?

E fuma,

E cansa,

E sonha.

Mantém-te firme,

Anda,

Para algum lado,

Para nós,

Para esse lugar.

Anda…

Para onde vais?


offtopic: hoje sonhei… foi estranho. não estava contigo há um tempo. sempre sonhaste e fizeste sonhar. aptece-me perguntar-te como estás? que tens feito? espero que te estejas a dar bem por aí… simplesmente deves andar away, ocupada com qualquer coisa de interessante. para a próxima naquela mesa de café respondes. até à próxima então.

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